terça-feira, 3 de junho de 2008

Ela

"Nós tinhamos acabado de nos mudar para esta cidade, antes moravamos num sítio no interior do estado. Tinhamos uma vida tranqüila, mas agora teriamos uma vida corrida e estressante.Eu não conseguia me acostumar com a idéia. Todos os meus amigos ficaram para trás. Eu teria saudades eternas da minha terrinha.

Já eram seis horas e o primeiro dia de aula, eu tinha que me levantar mesmo odiando a ideia de ter que ir para o colégio. Eu era feliz no meu antigo, mas como nada é perfeito, ele só tinha até a oitava série. Era bom eu ir me acostumando com a idéia de que eu iria ter que fazer novos amigos, apesar de não ter facilidade. Me levantei com cara emburrada, fui tomar banho, vestir minha melhor roupa- não queria causar mal impressão. Tomei café, mamãe me fez um pão com ovo que estava bom -a única coisa boa do meu dia!

Fui para a escola. Chegando lá, me senti um zero a esquerda. Ninguem me olhava. Tocando, fui para a sala, uma sala grande com cerca de cinquenta carteiras. Todos me olhavam como se eu fosse uma intrusa, e eu acabei me sentindo uma. A professora me apresentou a turma que não queria saber nem quem eu era. Mas, quem iria querer conhecer uma menina pobre, feia e do interior? Ninguem, mas é claro! O preconceito ainda é muito grande neste mundo.

Do meio pro fim da aula, fui me acostumando com aqueles seres estranhos. Eles, não se acostumaram comigo. Ninguem me aceitava. A professora tambem ria das piadinhas sem graça que tiravam comigo. Eu não estava aguentando mais. Comecei a chorar com saudade dos meus amigos, meu povo.

Cheguei em casa e mamãe ainda pergunta como foi o colégio. Eu olhei para ela, abri o meu sorriso sarcástico e disse que foi ótimo. Ela entendeu a mensagem, mas não poderia fazer nada para me ajudar. Esse meu dia foi péssimo, só não foi pior por que não tinha como."

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Ele

"Ah, aquelas férias foram as melhores!
Papai nos levou para o Rio Grande do Sul!
Passamos exatos 12 dias e 6 horas fora de nossa cidade de origem, e sinceramente, valeu a pena:
as garotas de lá tem uma beleza exótica.
As aulas começaram logo depois, lembro-me que era um 02 de Fevereiro.
O dia estava claro, e se não fosse pela barata dentro do meu sapato, teria sido perfeito.
Acordei meio tonto por conta da hora que estava acostumado a dormir nas férias, e contrariei a regra de tomar banho todo dia antes de ir pro colégio.
O choveiro elétrico havia quebrado há dois dias, e papai não tinha mandado consertar ainda.
Então, molhei o cabelo para despistar, botei meu melhor perfume, e lá fui eu calçar meus sapatos novos da adidas.
Coloquei os sapatos e senti uma coisa estranha na ponta do dedão, mas achei que devia ser uma daquelas costumeiras 'bolhas' que as meias novas originam.
Daí eu me toquei que as bolhas não se mexiam quando os pés estavam parados.
Tirei o tênis, coloquei-o à luz e vi aquele fim de asa rubro-marrom se debatendo ao fundo.
Joguei o tênis e pedi socorro.
Papai veio correndo pra me ajudar pensando que eu tinha levado um choque no choveiro ou algo do tipo, mas quando chegou ao banheiro e viu minha calça melada de creme dental e os sapatos em cima da pia, perguntou assustado:
- Menino, o que foi isso?
- Acho que tem uma bolha com rabos nos meus sapatos.
Ele então foi olhar o que tava acontecendo dentro daqueles sapatos tão caros.
Nem vi como foi que ele retirou aquela coisa de lá, tinha ido pro meu quarto de novo, enxugar os cabelos recém-banhados.
Pus o tênis e corri pra pegar o ônibus.
Como tradição, não tomei café por ser o primeiro dia de aula.

O colégio estava normal, nada demais, nada de menos.
Os mesmo novatos solitários exluindo-se, os grupinhos de patricinhas conversando sobre as sandálias que bombaram nas férias e sobre os mil países que tinham visitado e eu, esperando ver alguém conhecido, já que tinha acabado de entrar no 2° Ano do ensino médio.
Como eu me arrependo de ter repetido...
Resumindo, as novatas até que eram bonitinhas [alguém não vai gostar de ver esse comentário], mas eu fiquei mesmo foi de olho em uma só.
Lá estava ela, cabelos curtos, pretos, olhar fascinante...
E meia dúzia de garotos querendo conhecê-la.
A manhã passou num flash.
No intervalo, um gordinho novato espremeu catchup demais na comida e terminou por se melar todo, o que gerou boas gargalhadas.
Então, no meio de todo mundo, ela se destacava.
Andava sempre com suas amigas, inseparáveis.
Tirei a cabeça disso, mulheres são perigosas quando os homens se abestalham.
Ao término das aulas, fui direto pra casa, nenhum dos meus companheiros de curtição havia ido pro colégio.
Esqueci que meu pai é o único que cobra que o filho vá ao primeiro dia de aula."